Maio do 68 e as suas circunstâncias

Por Miquel Amorós. Palestra no Ateneu Libertário de Vallekas.

Hoje em dia, resulta difícil colocar a revolta de Maio do 68 no seu sítio, ou seja, na história da luita de classes, porque a geraçom titulada da posmodernidade já se tem apalancado nas instituiçons e desde ali dita doutrina ao respeito. A sua conceçom do mundo —o seu «episteme»— é moi diferente à que tinham entom os rebeldes, com causa ou sem ela. Para essa geraçom filistea e pragmática que erige o presente imediato em realidade única, a memória das revoluçons nom vai além dumha evocaçom estética e relativista que se pode estirar e retorcer a gosto do intérprete. Segundo ela, a verdade nom existe, pois todo depende da perspetiva com que se olham os factos; o privilegiar umha visom sobre outras nom seria mais que autoritarismo. Para quem cresceu entre renúncias, falsidades e traiçons, a revoluçom, enquanto irrupçom da verdade na história e destruiçom de todo poder, nom tem nenhum sentido: aquela há que a ver simplesmente como um «texto» suscetível de variadas leituras, todas elas perfeitamente válidas. Pretender o contrário equivaleria a mostrar-se como um espírito intolerante e antidemocrático. Acha o pós-moderno a ciência certa que ao Poder com maiúscula nom se lhe pode destruir, pois todo mundo faz parte dele. É legítimo entom introduzir-se nas suas estruturas —«assalta-las»— e jogar com elas no seu próprio benefício. A partir desse momento, o oportunismo político recebe a sua consagraçom ideológica e em consequência a autoridade, o privilégio e a exploraçom, tratam de disimularse baixo conceitos nebulosos como empoderamento, contrapoder ou dispositivo. O pensamento débil é a ideologia dominante no capitalismo crepuscular, devido a que a insatisfaçom dum par de geraçons diplomadas de classe média converterom-se num fator a ter em conta.

Desde que a filosofia universitária reconverteu-se —primeiro na França, depois na América e depois no mundo inteiro— vemo-nos inundados de exabruptos linguísticos tais como multitude, rizoma, redes, diversidade, sistemas de intercâmbio simbólico ou relaçons multidirecionais. Para alguém amamantado em ubres estruturalistas, umha linguagem autorreferencial é a ferramenta melhor indicada para ocultar (dira-se «repensar») os antagonismos de classe e negar a possibilidade dumha consciência de classe. Graças a umha obtusa terminologia, a vida social concreta volta-se biodegradável num ininteligible universo especulativo. Corrigindo a Orwell, poderia dizer-se que quem «repensa» o passado de tal guisa prepara o futuro sobre medida. Polas suas palavras os conheceredes, mais que polas suas coisas: se aquelas som espessas e indigestas, estas últimas som bastante ligeiras e óbvias. A vanguarda pós-moderna está constituída por umha legión de tecnócratas —vampiros «dialógicos», máquinas desexantes, académicos cidadanistas e dinamizadores culturais a salário— que por riba de todo som gente de ordem (som a «nova socialdemocracia»), e, portanto, tecnófilos convencidos. No momento em que o espetáculo se apodera da sociedade, toda a atividade desde as instituiçons volta-se espetacular, e, no caso que nos ocupa, apologética: Nada adquire visos de realidade desde fora do Poder. No entanto, a verdade é tozuda e abre-se caminho graças a quem abominam da deshonestidade e o postureo, esperando as eclosons de cólera popular que a voltaram practicável. O Poder reina, mas nom governa. Os traxes de neolingua estam feitos de fume. Em realidade, a história existe, a verdade objetiva existe, e o que para os pós-modernos é pior, a classe proletaria combate por recomponher-se e a revoluçom, o “grande relato”, ainda é possível e desejável. A luita por libertar espaços da opressom do Estado e do Mercado segue vigente.

Desde um ponto de vista subversivo, o único que nos pode interessar, Maio do 68 foi antes todo um facto revolucionário. O tempo decorrido entre o fechamento da universidade de Nanterre e a volta ao trabalho na fábrica Citroën —entre o 3 de maio e o 23 de junho de 1968— foi umha explosom de liberdade («Proibido proibir»), a maior greve selvagem da história, o fenómeno histórico recente mais influente na França e fora dela, determinando o protesto social e condicionando a política, a cultura e a sociedade europeia durante mais dumha década. O Poder tivo que reinventar-se, a economia tivo que reestruturar-se, e ao pensamento dominante, o da dominaçom, lhe tocou reelaborar-se —« repensar-se»— umhas quantas vezes. As diferentes comemoraçons oficiais ou oficiosas do «grande acontecimento» que forom acontecendo até hoje nom som mais que a recuperaçom e a reciclagem para o Estado, os mercados e a propaganda do sistema, dos fragmentos neutralizados do legado de Maio. Filósofos, sociólogos, polícias e historiadores aunarom os seus esforços com os dos expertos desinformadores, políticos, financeiros, empresários e altos executivos para que, trascurrido o tempo necessário, se contemple como umha modernizaçom o que nom foi outra coisa que umha revoluçom.

Há que considerar que os jovens que atuarom como detonante do movimento provinham dumha geraçom que nom fixo a guerra, que nom conhecia a escassez material e que acedia em massa aos estudos superiores sem travas clasistas de consideraçom. Umha geraçom com pontos de vista enfrentados com as geraçons anteriores. Mas o conflito geracional somente foi o aspeto mais superficial dumha crise que estava a ponto de se manifestar em todos os terrenos. O Estado gaullista estendia-se por todas partes criando um vazio ao seu redor. Em puridade, nom havia sociedade civil, senom só poder administrativo. O conservadurismo da dominaçom cobria-o tudo, nada ficava para a improvisaçom: «França aburre-se», dixo o diário «Le Monde», qualificado por alguns de «porta-voz oficioso de todos os poderes». Viviam-se anos de bonança económica e de incipiente consumismo, mas nom estava claro se morrer-se de fome era melhor que palma-la de tédio. Algo havia que fazer, por exemplo, reivindicar. Qualquer coisa, menos ler a Sartre, o amigo dos regimes totalitarios, ou a Althusser, o «sombrio demente» que postulaba «um processo histórico sem sujeito». A princípios do curso 67-68, as demandas estudantis eram puramente académicas (livre circulaçom polas residências, exames, horários e coisas assim); mas a meiados, poriam-se em solfa os princípios sobre os que se assentava a universidade. Nom se queria umha universidade tecnocrática, isto é, integrada na produçom capitalista, senom umha universidade «popular». O movimento estudantil transformou-se em um bastiom da desordem onde os mais ousados queriam viver sem travas, nom sobreviver em um mar de tempos mortos. No entanto, essa rejeiçom dum velho ensino que tendia a se modernizar dentro dum sistema anquilosado e autoritário, essa vontade aperturista para «o povo» e essas ânsias de viver intensamente, escondiam o medo compreensível do estudante a um futuro difícil umha vez terminados os estudos. O ser e o devir dos estudantes no médio capitalista —a sua «miséria»— forom ridiculizados em umha célebre brochura editada primeiramente em Estrasburgo que causou grande escândalo. O estudante, destinado a nom ser mais que algo similar a um operário de ofício, refugiava-se em umha rebeldia ilusoria vehiculada polos grupúsculos, pensando que a fim de contas as suas modestas expectativas estavam a salvo. Queria umha mudança, umha renovaçom o mais conforme possível com os seus interesses mas respeitando as suas fantasmagorías ideológicas; desejava umha reforma, umha «democratizaçom» em soma do sistema de ensino de classe, mas com todos os oropeles do radicalismo. Em cambio, nos médios operários nom se abusava do vocabulário extremista, mas evidenciavam-se sintomas de disfuncionamento sindical agudo, já que já nom eram infrequentes as greves à margem dos desacreditados sindicatos e inclusive contra eles. O termo de «selvagem», usado para adjetivar as greves inesperadas, nom autorizadas nem controladas polas organizaçons sindicais legais, deviu de uso quotidiano.

Numha universidade onde o sindicalismo estudantil tocou fundo, e portanto, onde nom existia o controlo social dos mediadores, o fechamento de faculdades, as expulsons de alunos e os ataques da polícia soliviantarom mais os ânimos que o pretexto em boga da invasom norte-americana do Vietname. As barricadas do Bairro Latino forom o resultado. Tal como dizia umha famosa inscriçom, «as barricadas fecham a rua mas abrem o caminho». O adoquín tivo um emprego apropriado («Baixo os adoquins, a praia»). O problema da violência ficou à ordem do dia como ato político. Os grupúsculos forom superados pois os seus dirigentes nom tinham claro o de pôr-se ao lado dum movimento «pequeno burguês». Em verdade, preferiam pôr-se ao lado do Partido Comunista «junto dos operários». Sem embargo, o embridaje das massas operárias por parte dos sindicatos, nom permitia essa convergência burocrática. O nó gordiano desfixo-se graças à greve geral espontânea que se estendeu polo país e induziu ocupaçons nas fábricas e lugares de trabalho. Até os empregados da rádio e televisom pública apontaram-se. O transporte ficou totalmente paralizado. Em total, dez milhons de operários virom-se afetados. Durante o período de agitaçom prévio a Maio, os trabalhadores convencerom-se da eficácia maior da mobilizaçom comparada com a negociaçom sindical na obtençom das suas demandas. Em fim, a apariçom dos operários como força ativa e numerosa mudou a finalidade do movimento e fixo que apontasse para metas revolucionárias, por mais que ninguém exigisse umha mudança de governo nem de nada. Parecia ser suficiente com que este nom se manifestasse. «Fim da universidade» foi a consigna correta. Já nom bastava com transformar a universidade: havia que transformar a sociedade no seu conjunto. A universidade nom mudaria mentres nom mudasse o sistema, mas isso incumbia fazer à classe revolucionária mediante o poder absoluto dos conselhos operários e a realizaçom da sociedade sem classes. As ocupaçons forom o verdadeiro começo da luita contra a engrenagem capitalista.

Em plena revolta, os estudantes já nom queriam fazer parte do sistema. Formularam-se teorias sobre a exploraçom que padeciam nos centros e sobre o seu carácter potencialmente proletario. Os apelos a solidarizar-se com os trabalhadores forom constantes («A vossa luita é a nossa»), mas nom confluiria-se num mesmo terreno. A cada qual ficou no seu, isolado, uns na rua e outros nas fábricas, talheres e oficinas ocupadas. Mentres tanto, as paredes tiverom a palavra e a imaginaçom subiu ao poder. A originalidade e exuberância dos conteúdos indicavam que os autores das pintadas eram indivíduos anónimos, nom militantes. As assembleias forom abertas, livres, alegres e gozosas, embora as tentativas de manipula-las por parte dos grupúsculos figerom-se constantes. A barreira entre os sexos esmaecia-se. A gente falava-se, a comunicaçom tinha lugar sem intermediários e o desejo libertava-se. «Tomem os vossos desejos por realidades» dizia umha pintada moi lembrada. Tratava-se de fazê-lo todo em comum, do discutir tudo, de nom delegar («Todos somos delegados»)… E em tal original médio questionava-se até o mínimo detalhe o imperialismo, o capitalismo, a burocracia, as hierarquias, os dirigentes, os partidos, o militantismo, as ideologias, a sexualidade, as eleiçons («Eleições, enganabobos»), etc. Durante um par de semanas, o Estado, a tv e os carros forom os grandes ausentes. Entom, qualquer coisa pôde ser possível.

A revolta de Maio nom foi um fenómeno exclusivamente francês, posto este que se dava em todas as universidades do mundo e repercutia ou ameaçava com fazê-lo nos setores desfavorecidos da populaçom. Os estudantes tomavam as faculdades e saíam à rua nos Estados Unidos, México, Japom, Alemanha, Espanha, Itália, e um montão de países mais, mas o seu protesto nom atopava os aliados suficientes para empreender umha ofensiva. Alguns marginados, vizinhos, jovens trabalhadores e empregados com vontades de briga, subproletarios da periferia, jornalistas, intelectuais e artistas desclasados, etc.: um médio moi heterogéneo. A saída da crise estava em maos dos operários, mas a estes o sistema de ensino, por moi popular que desejasse ser, nom lhes interessava. Aos sindicatos, menos. Estes eram ainda moi fortes e se bastavam para encauzar o mal-estar operário mantendo a distância aos irregulares. A criatividade sem travas, a vida quotidiana sem constriçons, o desejo libertado, a comunicaçom direta, a poesia feita por todos, etc., eram conceitos difíceis de penetrar numha mentalidade prosaica e escrava de convençons determinadas polo capitalismo. Na França, os estalinistas e os sindicalistas profissionais tiverom relativamente sucesso. A tentaçom das melhorias pecuniarias é efetiva quando nom se vislumbram melhores saídas imediatas, e a maioria dos operários, demasiado atada aos imperativos do consumo, nom contemplava umha revoluçom como algo factível. O controlo operário, os conselhos e a autogestom nunca figurarom nas tabelas reivindicativas, como tampouco, noutra ordem de coisas, a equiparaçom salarial entre homens e mulheres. Em quanto ao campo, a ruralidade simplesmente ignorava-se. Ainda assim, muitos operários, começando polos da Renault, fábrica senlheira do proletariado francês, rexeitarom os Pactos da rua Grenelle e negarom-se a pôr fim à greve. Por se acaso, o presidente De Gaulle, num discurso à naçom, tivo bom coidado em assinalar a possibilidade de escolher entre umhas eleiçons legislativas ou um exército na rua. Era o momento em que o proletariado tinha que dar um passo adiante na sua autonomia ou botar-se para atrás.

Ninguém achou possível resistir aos tanques, nem considerou viável umha revoluçom conselhista com tantos inimigos internos. O movimento ficou sentenciado. A normalidade regressou com a abertura das gasolineiras e o trânsito rodado. O automóvel pola rua foi todo um símbolo da volta da ordem. A universidade virou-se em si mesma e preparou-se para absorver todas as inovaçons reclamadas. De fator desencadenante, convertera-se durante os meses posteriores em fator regresivo de primeira magnitude, ou dito em linguagem político, em «laboratório da participaçom». No curso seguinte, baixo umha cobertura seudo radical, readaptaria-se e reafirmaria-se como elemento chave na formaçom de pequenos «quadros» e na fabricaçom de ideologia. O esquerdismo contribuiu em grande parte. Os filósofos pós-modernos entom tomarom posiçons nos departamentos universitários para poder vender logo a sua quincalla ao grande público. Umha vez que Maio deixou de se considerar um perigo, a literatura pós-moderna acaparou os meios e voltou-se imprescindível em todo estudante que quisesse estar ao dia. A sua principal característica, a irracionalidade, encaixaria perfeitamente com a falta de sentido dumha vida orientada polas necessidades dum mercado mundializado e controlada por um sistema de estados-gendarme.

Em Maio do 68 evidenciou-se um pensamento subversivo, um estilo libertário de expressom, moi unido à prática. Os seus precedentes nom há que procurar nos catecismos esquerdistas que constituíam o alimento principal dos militantes grupusculares. Muito menos nas andanadas estruturalistas e existencialistas da reaçom universitária. Desde os anos cinquenta existia umha corrente marxista crítica que partia da desmitificaçom do estalinismo, denunciado como o regime totalitario dumha classe dominante, a burocracia de partido, que explodia aos proletarios apropriando-se coletivamente da plusvalía. Os benefícios traduziam-se em privilégios e ascensos dentro do aparelho estatal. O chamado socialismo soviético nom era senom um capitalismo burocrático de Estado, sem separaçom de poderes nem intermediaçons democrático-parlamentares reais. A crítica do estalinismo implicava a rejeiçom do partido único, do vanguardismo e do centralismo orgânico. A crítica do reformismo questionava o sindicalismo de concentraçom e o parlamentarismo. Num contexto revisionista crítico, os marxistas heterodoxos, Lukacs jovem, Korsch, Pannekoek, Rosa Luxembourg, Wilhelm Reich, Georges Sorel, etc., chamarom a atençom, ao igual que os escritos do jovem Marx e de Freud, os tratados sobre a guerra de Clausewitz, as diatribas contra o Estado de Bakunin, o «único» de Stirner e as Liçons de Filosofia da História de Hegel. O conceito de alienaçom, especialmente como o formulava Marx em «O fetichismo da mercadoria», umha secçom do primeiro capítulo de «O Capital», voltou a ocupar um lugar destacado na crítica teórica. Com tal bagaje puxo-se de relevo a grande mentira da ideologia marxista-leninista, umha espécie de determinismo económico e cientismo mecânico derivado da conceçom materialista burguesa do mundo. E ao mesmo tempo, revalorizou-se o papel do anarquismo e do sindicalismo revolucionário no movimento operário.

No âmbito da crítica moderna dos anos sessenta, encontramos a grupos como os surrealistas; a revistas como Socialisme ou Barbárie, Noir et Rouge, Invariance ou l’Internationale situationniste; a editoriais como Cahiers Spartacus ou Éditions de Minuit; e a intelectuais como Albert Camus, Henri Lefebvre, Herbert Marcuse, Daniel Guérin, Guy Debord ou Raoul Vaneigem. O estudo do capitalismo de pós-guerra trouxo à palestra temas como o urbanismo, a tecnologia, a política sexual, a vida quotidiana ou o espetáculo. Um novo conceito de miséria, umha caracterizaçom mais profunda da oposiçom de classes e umha nova definiçom de proletariado resultarom mais adequadas para a análise da situaçom presente. Criticou-se aos sindicatos como instrumento capitalista regulatório do mercado laboral tal como já tinham feito a esquerda consejista e o tándem Péret-Munis. Forom redescubertas formas de organizaçom nom estatista e de emancipaçom do trabalho como os soviets, os conselhos operários e as colectividades da revoluçom espanhola, e se resgatarom do esquecimento formas de autogoverno como os realizados polos marinhos de Kronstadt, polo exército makhnovista ou os revolucionários húngaros de 1956, ou seja, a parte nom vencida dum projeto revolucionário provisionalmente derrotado. O caminho para o comunismo teria que apoiar-se no fim da divisom entre operários nacionais e foráneos, entre trabalhadores manuais e intelectuais, entre camponeses e urbanitas, e entre dirigentes e dirigidos, isto é, teria de passar pela supressom de fronteiras, pola democracia direta, pola autogestom generalizada e pola aboliçom do Estado. «Fim da separaçom», volta à dialética.

Em Maio do 68 nom chegarom a criticar-se os estereotipos de género. Bem que a presença de mulheres abundasse em comissons de trabalho, assembleias e manifestaçons, estas nom subiam à tribuna nem exerciam quase nunca de representantes ou porta-vozes. Sim, em cámbio, passavam a máquina os comunicados, preparavam sandes e geriam as improvisadas gardarias. Somente um grupo composto exclusivamente por mulheres, Feminino Masculino Porvenir, FMA, dara-se a conhecer no final de junho, mas sem chegar a questionar a maioria masculina na direçom do movimento, e, portanto, sem pôr no pelourinho ao patriarcado. A questom feminina nom se despregará em toda a amplitude, sempre dentro de parâmetros revolucionários, até a constituiçom durante a primavera de 1970 do Movimento de Libertaçom das Mulheres, MLF. Maio nom fixo mais que desbrozar o caminho. Diferentes assuntos como a ecologia, o feminismo, as comunas, a antipsiquiatria, o budismo, as drogas e os direitos dos homossexuais, chegarom desde Estados Unidos pola via o rock e a contracultura e por desgraça amalgamaram-se com o esquerdismo —sobretudo com o dos «mao-spontex»— cujo discurso ajudarom a modernizar.

Dado os rasgos libertários de Maio do 68 como por exemplo a rejeiçom a toda a classe de dirigentes, a subjetividade radical, a negaçom do Estado (a frase «Nós somos o poder» ia por aí), a rejeiçom do consumismo, etc., poderia supor-se a existência dum movimento anarquista dalgumha envergadura. Efetivamente, as bandeiras negras ondeando nas barricadas forom numerosas, mas nom as sustentavam anarquistas organizados. Também nom destacou a propaganda especificamente anarquista. Somente três ou quatro panfletos poderiam qualificar-se assim. Houvo anarquistas no Movimento 22 de Março, no Conselho pola Mantemento Das Ocupaçons que sentava os seus reais no Instituto Pedagógico Nacional (com os situacionistas), em algum que outro comité de instituto, nos ocupantes da Casa da Espanha e no Comité de açom Trabalhadores-Estudantes instalado no anexo Censier. O anarquismo tradicional da Federaçom Anarquista foi em grande parte indiferente ao movimento e o resto, maioritariamente filhos de refugiados espanhóis da CNT, era demasiado exiguo como para chamar a atençom entre os milhares de ativistas. Verdadeiro é que a literatura anarquista floresceu após Maio e que se criarom novos grupos e publicarom revistas mais interessantes que «Monde libertaire» —inclusive fundou-se um partido, a ORA, a imagem dos partidos esquerdistas—, mas o anarquismo em si, nem em Maio nem depois, brilhou com luz própria e nom consta que escrevesse páginas especialmente memorables. Abria-se-lhe por diante, isso sim, um longo debate interno que nunca concluiria, e um porvir com grandes altibaixos.

Maio do 68 nom foi umha revoluçom ao uso e tive um impacto maior que o de muitas revoluçons. Apesar de fracassar, repercutiu durante anos em toda a sociedade francesa. Nesse sentido, nom fracassou. «Isto nom terminou, a luita continua» foi umha consigna perfeitamente válida durante muito tempo. Se bem nom acabou com o sistema apesar de te-lo entre as cordas, obrigou-lhe a reconverter-se até extremos imprevisíveis. As escolas, as faculdades, as fábricas, as profissons, os meios de comunicaçom, as forças repressivas, a propaganda política e o sinfín de instituiçons que dam forma ao controlo social, experimentarom mudanças notorias. Somente assim o domínio formal do capital pôde converter-se em domínio real, e a mercadoria conseguiu ganhar a partida. A capacidade contrarrevolucionaria do estalinismo no médio operário ficaria esgotada para sempre. A revolta finalmente nom triunfou, mas as suas impressons demorarom em se apagar. A sua lembrança sobrevive acima do maquilhagem com o que se pretende liquidar a sua herdança mentres continua asediando a má consciência das elites e os seus servidores, e som precisamente esses contínuos esforços por enterra-lo e fechar o seu sepulcro baixo sete chaves os que revelam a sua innegable natureza revolucionária. Como dizia um conhecido cartaz: «Burgueses, nom compreenderom nada!”. Mude-se a palavra «burgueses» pola de «dirigentes», «pós-modernos», «políticos» ou «executivos» e a frase será perfeitamente válida neste século, cinquenta anos após ter sido pronunciada.

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