11 de junho, chamamento a solidariedade com xs prisioneirxs anarquistas com condeas de longa duraçom

Reproduzimos este comunicado da web de pt-contrainfo.espiv.net.

11 de Junho, 2018: Um dia contra o olvido

11 de Junho é um dia internacional de solidariedade com Marius Mason e todxs xs prisioneirxs anarquistas a longo prazo. Uma centelha na eterna noite da repressão estatal. Um dia dedicado a honrar todxs aquelxs que nos foram roubadxs. Neste dia, compartilhamos canções, eventos e acções para celebrar xs nossxs companheirxs capturadxs. Em anos anteriores, as celebrações do 11 de Junho têm sido internacionais e abrangentes – de festas com amigos até diversos ataques inspiradores; de recolhas de fundos e noites de escrita de cartas a presxs até todas as formas incalculáveis e desconhecidas para manter a chama viva.

Fruto do esforço acumulado para este dia, todos os anos alguns de nós se juntam para discutir e reflectir acerca das lições dos anos anteriores e para renovar esta chamada à solidariedade contínua. Este ano, convidamos-vos a explorar e ponderar connosco o modo como a manutenção do apoio a prisioneirxs a longo prazo depende directamente da manutenção de movimentos e lutas de que todxs continuamos a fazer parte. Como poderemos esperar continuar décadas de apoio  enquanto os movimentos, grupos e pessoas vêm e vão, e são reduzidos a cinzas ou apanhadas nos esgotantes fluxos e refluxos da luta? Indo mais fundo, o que podemos aprender com xs prisioneirxs a longo prazo e os seus legados de solidariedade? Como podemos sustentar e melhorar a saúde dos nossos movimentos, e por sua vez fortalecer esse apoio?

Em vários dos últimos anos floresceram as críticas ao encarceramento, o que frequentemente resultou numa miríade de projectos e esforços de apoio a prisioneirxs. Encorporando estabilidade, compromisso e longevidade, são prisioneirxs da Libertação Negra, da Nova Esquerda, dos movimentos indígenas, e aquelxs que incessantemente os apoiaram durante décadas. Além destes esforços, houve um ressurgimento da organização contra o próprio encarceramento massivo. Apesar de terem sido grupos mais pequenos a dar voz a estes sentimentos há muitos anos atrás, é encorajador ver mais pessoas a tomar este trabalho em mãos. Houve também um aumento de esforços para apoiar presxs rebeldes que se têm envolvido em tudo desde greves ao trabalho até incendiar e destruir unidades inteiras na prisão. Ao mesmo tempo, há cada vez mais projectos a criticar o estado em si mesmo – constatando que este é sustentado pelos pilares das prisões e pela polícia. Finalmente, há muitos esforços dirigidos para as necessidades de prisioneirxs queer e trans, sobreviventes criminalizadxs de abuso doméstico e sexual, e pessoas com problemas de saúde mental, para dar apenas alguns exemplos.

O espírito do dia 11 de Junho, que convida toda a gente a participar de acordo com os seus desejos, afinidades pessoais e preferências tácticas, encoraja-nos a ver difundida uma tal actividade. Em particular, uma coisa que nos anima ver é quão difundida se tornou a escrita de cartas, blogs, livros e zines por prisioneirxs. Após anos de discussão sobre o amplificar das vozes dxs prisioneirxs, estamos a ver os resultados e valorizamos as incontáveis horas dedicadas por prisioneirxs e apoiantes para lançar e sustentar estas publicações. A complementar estes esforços estão aquelxs que expandiram a solidariedade internacional ao traduzir e passar a palavra dxs nossxs companheirxs, tal como xs que empreenderam belos gestos e mensagens de solidariedade com acção corajosa e de ataque.

Entre estes muitos projectos de apoio a presxs, vemos uma variedade de orientações, de tácticas, de estratégias e práticas. Com a expansão das iniciativas, surgiram intermináveis emergências e chamadas urgentes à acção para apoiar prisioneirxs, além de todas as outras crises constantes neste mundo de pesadelo. Com tanta coisa para fazer, somos forçadxs a fazer escolhas. O activismo tradicional, que exige que tanta da nossa energia seja dirigida para acções imediatas e frequentemente simbólicas – à custa de intenções e estratégias de longo prazo – não vai funcionar, simplesmente. Precisamos de agir com a preocupação de sustentar os nossos movimentos e projectos, de forma a que possamos continuar capazes de apoiar companheirxs a cumprir décadas na prisão. Isto exige uma abordagem holística à luta e à vida solidária.

Gestos isolados são importantes, e por vezes o melhor que conseguimos fazer. Mas o que significa fazê-lo a longo prazo?

Ainda que 11 de Junho seja apenas um dia, é uma manifestação da força e da fortaleza diárias de companheirxs presxs, e do trabalho incansável e de bastidores daquelxs que xs apoiam. Muitas vezes visitando; escrevendo; levantando dinheiro; divulgando informação; partilhando arte, poemas e escritos. Sentimo-nxs inspiradxs pelos grupos de apoio a Jeremy Hammond e Marius Mason, que trabalham consistentemente para os manter ligados ao resto do mundo. Vemos o exemplo de Sacramento Prisoner Support [Apoio a Prisioneirxs de Sacramento], lutando há anos para libertar Eric McDavid. Sentimo-nos impressionadxs por todxs xs que ajudaram prisioneirxs a longo prazo como Zolo Azania, Russell Maroon Shoatz, David Gilbert, Sean Swain, Mumia Abu-Jamal, Jalil Muntaqim, Leonard Peltier, e tantxs outrxs, para publicarem livros escritos nas suas celas.

Visões & Possibilidades

Face à perspectiva de longo prazo de ajudar companheirxs ao longo de décadas nas prisões, e o trabalho de curto prazo que esta solidariedade implica, arriscamos-nos a perdermos-nos nas correntes alternadas do desespero e mania que não deixam espaço para a reflexão. É difícil saber por onde ir quando nos confrontamos com a esmagadora tarefa de melhorar a privação e a miséria que xs nossxs companheirxs enfrentam, e ao mesmo tempo permanecer críticxs do reformismo. Queremos xs nossxs companheirxs livres agora e a demolição imediata de todas as prisões, mas não temos ideia de como o fazer. Apesar das décadas de acção combinada em solidariedade com prisioneirxs anarquistas, não temos um diagrama, apenas visões.

Ao descartar as dicotomias fracturantes e os seus fetiches tácticos (luta de massas vs acção directa), podemos chegar a uma nova métrica para avaliar o nosso trabalho: pode esta acção sustentar-me e às/aos minhas/meus companheirxs ao longo dos próximos anos? Parece improvável que um movimento vibrante de solidariedade com prisioneirxs possa florescer se as nossas preocupações forem apenas ideológicas, tácticas ou estratégicas. A alegria e a dificuldade das relações humanas, a tristeza gerada pelo cimento e pelo arame farpado, a luta contra ideias e comportamentos opressivos e a correspondente necessidade de formas transformadoras para lidar com o conflito, o entusiasmo e o medo que vêm com a libertação de um/a companheirx, e a frustração e exaustão associadas a este trabalho, tudo isto devia integrar o modo como entendemos a solidariedade.

Parece-nos que ao abordar directamente estas considerações, podemos começar a pensar para além das crises imediatas: leituras controladas, cartas desaparecidas, limitações na solidariedade, lutando por fundos do comissariado. Ao nos ancorarmos nas relações com os indivíduos na prisão – vendo-os não como celebridades, líderes ou “pessoas oprimidas” abstratas – abrimos espaço para sonhar com o que uma vida em comum, compartilhada em comum com xs nossxs companheirxs presxs poderia significar. Com isso, saímos do reino do puramente político e entramos no reino do humano. Não se pode sobreviver de dever e ideologia, mas as relações humanas podem nos nutrir e sustentar. E devemos lutar continuamente para manter os caminhos claros – para alcançar xs nossxs companheiros dessa maneira, à medida que o estado continua a desumanizá-lxs e isolá-lxs, restringindo cada vez mais as visitas àquelxs por trás do vidro ou, pior ainda, aquelxs numa tela, se estamos a poucos metros ou centenas de quilómetros de distância. Visitas presenciais e de contato, de valor inestimável para a construção de conexões humanas reais, são muitas vezes altas na lista de demandas de prisioneirxs e daquelxs que as apoiam no exterior. Recentemente, nos inspiramos na campanha da Fight Toxic Prisons para manter as visitas de contato no Departamento de Correções da Flórida.

Temos que nos esforçar por entrelaçar as nossas vidas com as vidas dxs nossxs amigxs e companheirxs na prisão. E na realidade, de muitas formas, as nossas vidas entrelaçam-se. A repressão a grupos de apoio a prisioneirxs pela Operação Scripta Manent (a tentativa do estado italiano para reprimir actividades anarquistas ao acusar indivíduxs de ataques incendiários e com explosivos) recorda-os de que há frequentemente uma linha fina a separar aquelxs que estão presxs daquelxs que estão cá fora a apoiá-lxs de todas as formas que possam.

Atualizações de prisioneirxs

Ao longo do último ano, xs nossxs companheirxs presxs enfrentaram os olhos frios e a mão violenta do estado com a sua integridade intacta. No Chile, Tamara Sol tentou escapar da prisão, foi seriamente ferida no processo, e foi desde então transferida: primeiro para uma prisão de máxima segurança em Santiago, e depois para a prisão especialmente brutal  de Llancahue, em Valdivia. A embrulhada “Bombs Case 2”, com Juan Flores acusado de múltiplos bombardeamentos em Sa ntiago e sentenciado a 23 anos na prisão. Na Alemanha, Lisa foi condenada a mais de 7 anos de prisão depois de ter sido considerada culpada de assaltar um banco em Aachen. Ela foi transferida para JVA Willich II em Fevereiro. Nos Estados Unidos, Walter Bond entrou em greve de fome por seis dias, exigindo refeições veganas, o fim da manipulação do correio e uma transferência para Nova Yorque, onde ele tenciona viver quando for libertado. Como retaliação, foi transferido para a Communications Management Unit em Terre Haute, no Indiana. Na Grécia, Pola Roupa e Nikos Maziotis entraram em greve de fome por quase 40 dias exigindo melhores condições e mais tempo de visitas, bem como a abolição daultra-repressiva prisão tipo-C em que Nikos tem estado detido. Dinos Yagtzoglou foi preso e enfrenta acusações relacionadas com uma carta armadilhada que feriu o anterior primeiro ministro Grego. A sua resistência atrás das grades despoletou a insurreição em três prisões gregas, garantindo a sua exigência de ser transferido para a prisão de Korydallos.

Nos Estados Unidos, o prisioneiro anarquista trans e de eco/libertação animalMarius Mason precisa de mais correio! Ele  gosta de receber artigos sobre os direitos dos animais, activismo ambiental, Resistence to alt-right,Black Lives Matter, e outras lutas penitenciárias. O Carswell Federal Medical Center, onde Marius tem estado detido nos últimos anos, é uma prisão notoriamente restritiva e cruel. Neste momento estão a negar-lhe os prometidos cuidados médicos relacionados com a sua transição, tal como opções veganas adequadas.

11 de Junho é uma ideia, e não apenas um dia. 11 de Junho é a cada dia. E as ideias são à prova de bala. Vamos dar vida ao resto do ano e renovar a celebração das vidas dxs prisineirxs anarquistas ao continuar as suas lutas ao seu lado.

Em suma: é uma chamada, por isso estamos a chamar-te! Dia 11 de Junho é o que fizeres dele. Segue o teu coração e enche o mundo de gestos belos. Não há acção que seja demasiado pequena ou demasiado grande.

June 11

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