Cataláns, Autonomias e Mapuches x José Bengoa

Um artigo de ogajeironagavea.wordpress.com


O chileno José Bengoa, antropólogo, filósofo e historiador chileno, é uma das vozes mais autorizadas à hora de falar do povo Mapuche em Chile; suas investigaçons antropológicas e históricas têm nutrido a numerosas geraçons de mapuches na busca daquela parte da história silenciada pola academia oficial chilena. Acedim a este artigo assinado em 4 de outubro na página web The Clinic por puro azar quando andava á procura de argumentos que me ajudaram a escrever um artigo coa intençom de contrastar a campanha orquestrada por algumhas anarquistas que estám a tirar contra a parte do povo catalám que quere independizar-se sob a escusa de que vam contra do nacionalismo em todas suas extensons. Estou-me a referir á campanha impulsada desde sites anarquistas, que segundo contam receberom por correio electrónico (pero que fica colocada entre seus destaques) e que ao meu parecer, índa que o queiram negar, estám a fazer-lhe ás beiras aos capitalistas centralistas e á pior espécie de franquistas busca-votos.
Uma campanha que se bem eu poidera partilhar toda sua merchadise noutras situaçons, nom crio que este seja o momento de tomar postura coa reaçom, pois ainda que sei que nom é sua intençom, agora só beneficiam ás apologistas da reaçom que berravam “a por ellos” para alentar ás forças repressivas que, de sempre, som as encarregadas de aplicar contra nós as leis que se vam inventado (declaradas depois anticonstitucionais). E se busquei a ligaçom de Catalunya co povo Mapuche foi adrede, dado que muitas anarquistas nom duvidam em tomar partido polos povos originários na sua luita pola autodeterminaçom por um suposto direito secular que se remonta no tempo e pola contra fecham os olhos á história dos povos europeios e negam com rotundidade esse direito quando quem o pede é um povo imerso nas leis capitalistas. E assim foi que atopei tal artigo e coa mesma cópio, traduzo e colo e aforro escrever eu algo:

As duas notícias que mais nos impactam nestes dias, têm sido seguramente o conflito na Araucania e a tensom polo referendo na Catalunya: uns querem autonomia e os outros sua independência. Curiosamente, séculos atrás, num mesmo tempo, desatava-se a Guerra dos Cataláns e a Guerra de Arauco. Parecesse que a história se volta a encontrar nos temas da modernidade: a aldeia e o mundo estám mais perto que nunca.

As curiosidades da História som sempre notáveis. Faz anos procurava nos arquivos o texto do Tratado de Quilín [1], em que os espanhóis dirigidos polo Marqués de Baydes, Governador de Chile nesses anos próximos ao 1640, reuníra-se nos LLanos de Quilín com os caciques, hoje em dia chamados “lonkos”, nesse tempo conhecidos como araucanos e hoje conhecidos como “mapuches”. O auxiliar do Arquivo de Índias em Sevilla trazia-me uns enormes molhos de papéis, amarrados com cordeis, já que nesse tempo um podia acercar-se aos originais e nom só a fotos digitais como hoje em dia. Nesses papéis agrupados por datas, a maioria dos documentos falavam de três temas: a Guerra dos Cataláns, a Guerra contra Portugal e a Guerra de Arauco, que era o que eu andava procurando. Por certo que me distraí e me pugem a ler os papéis desses conflitos de mediados do século XVII.

Espanha enfrentava-se com todos os príncipes e reinos de Europa. Tinha tropas em Flandes, em Itália, e na península tratava de anexar a Portugal e impedir que se independizara Catalunya, os cataláns como se lhes dizia. A guerra de Flandes, o que hoje é Holanda e parte de Bélgica, estava estancada e desangrava as arcas e a populaçom espanhola. Itália era conquistada por Gonzalo Fernández de Córdoba, Governador de Milano, que morre em 1635, bisneto do “Gram Capitám”, para muitos o primeiro soldado renacentista, isto é, moderno, poderíamos dizer. Dessa vertente proviam as tropas de Alonso de Ribera que chegaram a Chile, ao Flandes Indiano, a deter a rebeliom mapuche de Pelantaro que tinha destruído as cidades do sul do rio Biobío, que eram as de maior desenvolvimento nesse momento, como Valdivia, após Curalaba onde o segundo Governador de Chile, Óñez de Loyola foi derrotado e morto. O Rei, e os reis que o seguiram, tratavam de manejar uma situaçom convulsionada, ao igual que agora. Curiosamente a história unia a questom dos cataláns com a dos mapuches.

Ocorreram três fenómenos diferentes. Portugal nom foi conquistado e se manteve independente até o dia de hoje [2],. Nom foi um assunto de línguas já que uma tám parecida ao português como a que se fala na Galiza, passou a ser parte do domínio hispano peninsular. Nom funcionou a ideia de um sozinho Rei de Espanha e Portugal como se pretendia. Catalunya nom conseguiu o de Portugal e foi derrotada. A rebeliom dos camponeses com suas fouces de segadores até hoje é recordada no hino Els Segadors, que nestes dias se canta nas ruas e atos em massa de Barcelona e outras cidades catalás. Foi uma guerra sangrenta. Espanha e Catalunya perderam as províncias catalás que ficaram até hoje no lado francês. O verme independentista, no entanto, ficou dando voltas por séculos. Hoje volta.

Numa carta encontrada nesses arquivos polvorentos, o Rei diz-lhe ao Virrei e este ao Governador do Reino de Chile, que a Guerra dos Cataláns, impedia que se enviassem mais tropas à Guerra de Arauco. Nom tinham um “doblón” nas arcas reais. Chamavam ao Governador a fazer as pazes, sobretudo para prevenir que os holandeses entusiasmados por seus triunfos, ocupassem Valdivia e se instalassem no Oceano Pacífico. Som esses episódios internacionais os que dam o contexto para que se realizem as Pazes de Quilín, ou Tratado do Vale de Quilín em que a nome do Rei de Espanha se lhe outorgam aos araucanos, hoje mapuches, favoráveis condiçons de independência territorial, sendo o único povo indígena de América Latina que o obtém. Conseguiram-no com a força de Butapichón e a astúcia diplomática de Loncopichón, os dois grandes líderes. Ali estabelece-se que o rio Biobío seria a fronteira e que as tropas nom o cruzariam em som de guerra e somente o fariam os missionarios, os jesuitas chamados “curas ou pais de negro”, curi patirus, polos mapuches. Quilín permitiu que a sociedade mapuche vivesse em forma independente por quase 250 anos, o que nom é pouco. Esse feito histórico fiz a diferença. A ata resumida do Tratado está num livro oficial da coroa espanhola, ao lado das atas e Tratados de Paz com os mesmos cataláns e outros principados com os que nesses dias se guerreava. Após esse primeiro Quilín teve muitos acordos em que o Estado espanhol voltou ratificar os limites da colónia. Inclusive ao começar a República de Chile, fizeram-se tratados que ratificavam essa situaçom de independência.

Na segunda metade do século IXX vai produzir-se em Europa e muitas outras partes do mundo, um conjunto de movimentos de carácter nacionalista que promoveram a unificaçom de grandes territórios. Espanha vai sair das guerras carlistas desangrado e sem resolver sua unidade nacional. A República, na primeira metade do século XX, permitiu um sistema bem mais racional para uma península tam diversa como a antiga Hispânia. Vascos tiveram em Guernica seu Governo com José Antonio de Aguirre de Lehendekari, quem em seu exílio posterior à Guerra Civil visitou Chile, e cataláns a Lluis Companys de Presidente da Generalitat. Franco, ao vencer na guerra, figera da unidade peninsular sua bandeira, proibindo inclusive que se falasse na Catalunya o catalám e o euzquera no país basco. “¡Arriba España!” berrou-se com o braço em alto. Esses nacionalismos levaram ao paroxismo o ideário de uma sozinha Naçom, um sozinho Povo e um sozinho Estado, com as dramáticas consequências bem conhecidas.

Estas ideias nacional estatistas tiveram sua expressom, também, nos países periféricos, sobretudo nos que tinham territórios em mãos de indígenas. Tinham-se que unificar os territórios, as naçons deviam aderir-se ao mundo “civilizado”. É de modo que concomitante a esses feitos o exército chileno e argentino avançaram suas linhas até ocupar a Araucania por lado e lado da cordilheira. Aos mapuches disse-lhes, com força por certo, que deviam ser chilenos, falar em chileno, pensar em chileno e rezar em cristám. A unidade nacional exigia a existência de um sozinho povo, de acordo às ideias de começos do século XX.

Mas os ciclos da História som implacáveis. Hoje por hoje, o verme das independências e autonomias tem começado novamente a picar em quase todas partes do mundo. Voltam a jogar-se as três alternativas, isto é, a independência, a autonomia e a dependência simples e pura de carácter colonial, baixo a ideia de unidade “nacional”, com todos os conflitos que isso implica. A independência joga-se na Catalunya, e muitas partes do mundo. Som demandas de ruptura dos Estados soberanos, de ser partes do mundo sem intermediaçom. A assim chamada globalizaçom e as tecnologias que a acompanham parecem ser o contexto que provoca, explica e permite estas situaçons. Há muito de falha de solidariedade, por certo, com as áreas mais pobres, mas também iras com as antigas dominaçons e centralidades; há revanche, há uma moda, às vezes histérica, ademais, polo tema da identidade. Nom cabe muitas dúvidas que desde visons centradas nas contradiçons das classes sociais, em suas lutas e imaginários (“a classe operária”), se tem estado transitando a imagens bem mais complexas em que as unidades som construídas de modo imaginário em torno de identidades linguísticas, religiosas, em fim, espirituais e também territoriais. É coisa de ver o que passa no mundo.

                                                           Tratado de Quilin, 1641.

Nom por nada surge o tema das autonomias, sobretudo naqueles povos dominados, colonizados, submetidos que procuram caminhos de autodeterminaçom. Os dois Pactos de Direitos Humanos, o de direitos “civis e políticos” e o de direitos “económicos, sociais e culturais”, assinalam do mesmo modo que é um direito inalienável da cada povo a autodeterminaçom. Estas ideias estám ancoradas no mais profundo da tradiçom judeo-cristiám ocidental. Pensemos em centos de versons de em “os rios de Babilonia sentávamos-nos chorando”. Aí está a ideia de um povo, de um povo colonizado, no exílio, deslocado, submetido e que luita por sua libertaçom. Nenhum colectivo, que se considere um povo, pode aceitar a dependência, a subordinaçom, nom estar a cargo das decisons que lhes competem. É por isso que quando se discutiu em Naçons Unidas a Declaraçom Internacional dos Direitos dos Povos Indígenaseste assunto foi central. Foi mais de uma década em que nom teve acordo, ao final assinalou-se que no caso indígena o exercício do direito à autodeterminaçom é a autonomia, isto é, uma semi-independência, um processo político em que o povo representado toma suas decisons internas sem ruptura com a soberania do Estado. Catalunya neste momento transita desde uma situaçom de autonomia parcial e relativa, outorgada a reganha os dentes, a uma de maior independência; em concomitancia o povo Mapuche passam em suas reivindicaçons desde uma situaçom de colonialismo interno a uma de relativa autonomia. Gostemos ou nom, som das tendências que estám a ocorrer hoje na sociedade internacional; esta ondanada vai da mão de mudanças tecnológicas e de pertencia ao mundo. A ideia de naçom, como homogeneidade total interna, surgida no século XIX começa a perder força; as pátrias som mais reduzidas a identidades circunscritas, sobretudo em sociedades complexas, onde existem histórias e trajetórias que nom sempre têm sido semelhantes e polo contrário estám cheias de violências e discriminaçons. A relaçom entre a aldeia e o mundo é hoje por hoje mais próxima que nunca. As modernidades que tanto anelamos em Chile também trazem consigo estas ideias de autonomias e autodeterminaçons dos colectivos discrimi­nados. A questom mapuche enquanto nom se abra a estas novas ideias modernas, nom terá soluçom. Caso contrário voltaremos à Guerra dos Cataláns e à Guerra de Arauco, como ocorreu fai séculos. A história repete-se, -digera um sábio alemám- a primeira foi tragédia, a segunda temo-me, será também tragédia misturada com algo de comédia.

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[1] O autor do artigo é tamém autor do livro “El tratado de Quilín. Documentos adicionales a la Historia de los Antiguos Mapuches del Sur”

[2] Portugal e Espanha seguerom a mover marcos até o Convénio de Límites assinado em Lisboa em 1926 e mesmo depois seguiu havendo escaramuças. Isso de que as fronteiras de España nom se movem desde há séculos é um mito

 

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